
Saudações, nobres companheiros! Odin voltou a seus salões já nos presenteando com um novo capítulo das Crônicas de Elgalor. Sem mais delongas, vamos ao que interessa!
As Crônicas de Elgalor Capítulo VIII: A Guerra dos Reis (Parte 6)
Por ODIN.
Os dias restantes para o duelo contra Skarr passaram rapidamente, tanto para elfos quanto para anões. Por opção do Alto Rei Élfico Thingol Shaeruil, o rei de Eredhon, Thérion I não foi informado sobre o confronto, pois Thingol não desejava a interferência dos humanos, devido a uma experiência terrível que teve com eles séculos atrás. Em Sírhion, Coran e Astreya se falaram muito pouco, pois o rei esteve ocupado o tempo todo organizando seus Cavaleiros da Lua para um combate em larga escala que provavelmente ocorreria após os duelos, independente do resultado.
- Há quanto tempo, lady Astreya - soou uma voz suave, porém firme pouco depois que Astreya terminara sua oração – Espero não estar interrompendo.
Astreya virou-se rapidamente, instintivamente levando a mão onde estaria o punho de sua espada. Ela quase gritou, quando viu a figura de um homem velho e imponente, trajado em um manto dourado e um turbante cor de areia.
- Senhor dos Ventos! – exclamou Astreya.
- Sim, Astreya, sou eu – respondeu o velho fazendo uma mesura – mil perdões por adentrar seus aposentos dessa maneira, mas preciso muito falar com você a sós.
- É claro, mas.... – hesitou Astreya por um instante – onde o senhor esteve todo esse tempo? Passamos por imensas dificuldades, e nosso amigo Erol...
- Está morto... – completou o Senhor dos Ventos com pesar em sua voz – Eu lamento muito por isso, mas como sabe, meu tempo entre vocês é extremamente limitado.
O Senhor dos ventos colocou a mão esquerda dentro de seu manto e tirou de lá uma pequena jóia branca como a neve.
- Vim lhe trazer isto – disse ele estendendo sua mão para que Astreya pegasse a jóia.
- O que é? – perguntou Astreya sentindo um grande poder mágico contido naquela pequena jóia.
- Aquilo que você precisar – respondeu o Senhor dos Ventos de forma séria e enigmática – Aquilo que você precisar, no momento em que você precisar.
- Se isto é tão poderoso – disse Astreya pegando a jóia enquanto tentava se manter calma – por que não nos deu isto antes?
- Porque se eu tivesse lhe dado a jóia quando vocês enfrentaram Thurxanthraxinzethos você a teria usado para salvar seu amigo, não é? – perguntou o Senhor dos Ventos com gentileza.
- Sim – respondeu Astreya com sinceridade.
- E neste caso – disse o Senhor dos Ventos baixando sua cabeça – estaríamos condenados ao final deste dia.
- Como assim?! – explodiu Astreya enquanto sentia um terrível calafrio percorrendo sua espinha – Vai acontecer algo terrível, não é? Skarr vai matar Thingol e Balderk?
- Talvez – respondeu o Senhor dos Ventos – mas isso não é o pior.
Astreya sentiu que suas pernas começaram a tremer, mas forçou-se a permanecer firme.
- É muita responsabilidade – disse ela olhando para a jóia – entregue-a a Aramil ou a Hargor...
- Apesar de Aramil e Hargor serem mais experientes e mais velhos do que você – disse o Senhor dos Ventos gentilmente colocando a mão no ombro de Astreya – apenas você possui a energia certa e na intensidade capaz de ativar o poder da jóia.
- Que energia é esta? – perguntou Astreya.
- Amor – respondeu o Senhor dos Ventos.
- Mas devo avisá-la... – continuou o senhor dos Ventos – que você não deve usar a jóia de forma egoísta.
- Eu jamais usaria ela para proteger apenas minha própria vida – retrucou a barda com convicção, mas internamente temendo muito o sentido oculto nas palavras do senhor dos Ventos.
- Há outros tipos de egoísmo, criança – respondeu ele – e creio que sabe disso.
Após proferir estas palavras, o Senhor dos Ventos desapareceu do quarto de Astreya. A barda ficou alguns momentos olhando inerte para a pequena jóia, até que ouviu alguém bater à sua porta.
- Quem é? – perguntou a barda educadamente enquanto guardava a jóia.
- Coran – respondeu a voz do outro lado.
Astreya correu e abriu a porta, fazendo uma mesura delicada.
- Em que posso ajudá-lo, Coran? – perguntou a barda.
- Logo partirmos, Astreya – respondeu o rei, que já estava trajando sua bela armadura de combate azul e prateada – você parece preocupada. Mais do que eu esperaria.
Astreya baixou a cabeça e seus olhos começaram a verter pequenas lágrimas enquanto a barda tentava decidir se contava algo a Coran.
- Tudo ficará bem – disse ele gentilmente limpando as lágrimas da barda com seu dedo enluvado e beijando suavemente seus lábios - Tudo ficará bem.
Astreya o abraçou com toda a força de seus braços e ambos permaneceram daquela forma por alguns instantes, até que Coran beijou sua testa e deixou-a sozinha no quarto para que ela vestisse sua armadura, e foi exatamente isso que Astreya fez; vestiu sua armadura, pegou seus itens e armas e repetiu dúzias de vezes as palavras de Coran: “Tudo ficará bem”.
As horas passaram rapidamente. Em pouco tempo, Astreya, Evan e Coran estavam no Vale do Escudo Partido, um vale gigantesco cercado por dezenas de montanhas. Aquele local já fora palco de uma batalha que envolveu mais de dois mil elfos e anões lutando contra cerca de seis mil orcs e seu último rei demônio, derrotado por Balderk I em combate singular. A batalha de hoje teria uma escala infinitamente menor, mas seria de igual importância para o destino dos povos livres de Elgalor. No flanco leste da região, estavam alojadas as tropas de Sírhion, local onde Coran, Evan e Astreya estavam. Ao lado deste flanco, mais ao norte, estavam as forças de Sindhar, lideradas por Bheleg Aldalen. Astreya notou com preocupação e surpresa que a princesa Meliann também estava lá, ao lado de Aramil, Tallin e de sua melhor amiga, a sobrinha de Bheleg, Elenna Aldalen. Ao sul das forças de Sírhion, estava a guarda de elite de Darakar, a temida Guarda do Trovão. Com eles estavam Hargor, Oyama, Bulma e Dúrin, o filho mais velho de Balderk, também conhecido como o Leão de Darakar. Conforme combinado, a maior parte das forças de Darakar e todos os elementais que serviriam Thingol estavam completamente ocultos. As forças dos três exércitos somados formavam um contingente de cerca de mil e quinhentos homens, mas não ocupavam nem um terço da planície.
No centro do vale estavam apenas Balderk I e Thingol Shaeruil, cada um com uma das cornetas negras dadas por Skarr aos heróis de Elgalor. Balderk trajava sua bela e poderosa armadura completa de batalha, um escudo grande habilmente ornado com o símbolo de um martelo e um trovão e seu machado, o Arauto das Tempestades. Thingol vestia um belo manto élfico verde claro com diversas runas douradas que lhe conferiam enorme proteção mágica. Em sua mão direita, o Alto Rei dos elfos carregava o Cajado do Sol e das Estrelas, o mais poderoso artefato de Sindhar, criado por ele próprio.
Apesar do enorme contingente de guerreiros ali presente, era possível ouvir o som do vento frio que soprava naquela região. O silêncio era quase absoluto. Balderk olhou para Thingol, deu um passo à frente e disse:
- Vamos acabar logo com isto! – Nisso, o Grande Rei dos anões soprou a corneta negra com toda a força de seus poderosos pulmões.
Neste momento, parecia que até o vento havia parado de soprar, mas nada aconteceu. De repente, rápido como um piscar de olhos, um gigantesco portal cor de sangue e fogo se abriu no chão na porção norte do vale, e dele surgiram milhares de guerreiros orcs, todos fortes, usando elmos fechados e armaduras negras, carregando enormes machados de lâmina dupla e lanças serrilhadas. Eles berravam e rosnavam, e alguns inclusive tocavam tambores de guerra. Aramil teve a impressão de contar cerca de quatro mil orcs, que preencheram completamente o flanco norte do vale.
A frente deles, surgiu um orc gigantesco e extremamente forte, de pele cinzenta coberta por dezenas, talvez centenas de cicatrizes. Seus olhos eram vermelhos como sangue fresco, e suas presas, afiadas como as de um lobo. Ele carregava consigo um enorme machado de lâmina negra que continuamente respingava um sangue fétido e viscoso, e trajava um grande cinturão e uma manopla repleta de espinhos, ambos feitos de uma espécie de ferro negro como a noite. Ele avançou até chegar a cerca de dez metros de Balderk. E com uma gargalhada sádica, cuspiu na direção do rei anão.





